UA-119529251-1

Zeitgeist/ Cristina Canale entre o ser e as coisas

Instintivamente e de forma quase cíclica, buscamos sempre fazer uma análise ou uma retrospectiva de acontecimentos e experiências que de alguma forma nos marcaram ou nos ensinaram algo novo ou distinto do que estávamos acostumados. Obedecendo a esse impulso e relembrando as exposições de artes plásticas que vi nos últimos tempos, devo confessar que uma das mais belas que visitei foi a da carioca Cristina Canale (1961) na galeria que a representa em São Paulo.

 

Não foi somente a potência das cores e a combinação de elementos figurativos, usados para representar seres tal como são percebidos por nosso olhar, com elementos abstratos geométricos, usados como recurso para compor a ambientação entorno de tais seres, que me chamaram a atenção nas pinturas mais recentes (2013-1014) de Cristina Canale. Como também a representação predominante de figuras femininas que caracterizaram sua última mostra individual no Brasil, “Entre o ser e as coisas”,  e cujos quadros foram trazidos especialmente de seu atelier em Berlim - cidade onde reside e produz há mais de vinte anos.

Cristina Canale, que se firmou no cenário artístico brasileiro juntamente com outros artistas jovens de sua geração (como Leda Catunda, Beatriz Milhares, Adriana Varejão, Daniel Senise ao compor o grupo “Geração 80” cuja proposta era uma nova arte em oposição à racionalidade conceitual das artes plásticas dos anos 1970 no país), encontrou em sua mudança para a capital alemã em 1993 condições perfeitas para a firmação de um estilo singular de pintura que ilustra uma tensão entre o ser e as coisas, entre a cultura e a natureza. Em sua página web (www.cristinacanale.com), podemos observar com muita clareza esse câmbio em sua produção entre os anos de 1980 e 1990. Contudo, a própria artista afirma que em todo o seu fazer artístico sempre teve como carro-chefe o elemento da contradição: a contradição da mescla de elementos abstratos com figurativos e que provoca uma certa tensão, um estranhamento inicial no olhar do observador.

 

Esse estranhamento surge do fato de que o observador não logra classificar as pinturas da artista como arte puramente abstrata nem estritamente figurativa. Com isso, Canale o leva a perder seus estigmas, suas certezas, seu costume de classificar o mundo no campo da subtração, do “isso ou é x ou y”. As obras da artista conduzem o observador ao campo da adição, do “isso é x e também é y”, e, com isso, desestabiliza o que ele considerava essencial e necessário para entender de forma taxativa a arte. Esse gesto de desestabilizar o que consideramos necessário e essencial para entendermos o mundo ao nosso entorno nos obriga a exercitar (ou despertar) nossa capacidade de readaptação e autocrítica diante de algo inesperado que coloca em xeque-mate aquilo que antes considerávamos como essencial ou como nossa zona de conforto.

 

Nesse aspecto, podemos citar um trecho do romance A paixão segundo G.H. de Clarice Lispecto que combina perfeitamente com essa ideia/necessidade de readaptação/mudança de parâmetros causada pelo surgimento de uma situação nova e surpreendente: “Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira perna me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar”.

 

 

Cristina Canale não somente desarma o “tripé estável” do observador com suas pinturas, como também o conduz a um campo intermediário, um espaço “entre” elementos figurativos femininos e espaços geométricos, entre o mundo inteligível das ideias e o mundo material sensível. Captados pelas potentes e intensas cores da paleta da artista, figuras e rostos femininos em primeiro plano fundem-se sutilmente às formas geométricas no fundo das tede uma organicidade simétrica. Com isso, uma delicada e inebriante trama, cuja temática remete diretamente ao universo feminino, encontra-se retratada em enormes quadros onde a potencialidade das cores abriga uma dinâmica e híbrida justaposição entre o figurativo e abstrato, entre o uso de motivos tradicionais da pintura, como retratos de mulheres e anjos, e a fragmentada linguagem pictórica própria de Canale que nos remete a mestres da pintura como Henri Matisse e Gustav Klimt.

Na obra "Damas" encontramos um elemento constante na produção dos últimos vinte anos de Cristina Canale: rostos femininos. Porém, esses rostos não estão pintados detalhadamente ao ponto de nos facilitar o reconhecimento da singularidade ou da identidade das mulheres retratadas. As figuras femininas têm rostos aparentemente mal  acabados, como se estivessem recém-esboçados, esfumaçados apenas; mas isso é um ato consciente da artista que prefere que suas mulheres não sejam reconhecidas ou definidas por um aspecto em particular. Essas mulheres levam no lugar do rosto uma espécie de “máscara”, e assim como a palavra “máscara” deu origem ao significado de “persona”, elas passam a representar em si pessoas femininas em sua totalidade.

 

Sendo assim, não poderíamos interpretar esses rostos propositalmente “não-reconhecíveis” e, aparentemente, sem uma identidade particular como máscaras que comportam de forma universal o retrato de múltiplas mulheres, de todo um gênero? Essas máscaras-rostos não poderiam ser analisadas como retrato do gênero feminino em sua essência e, em uma potência maior, capaz de alcançar e retratar a todas nós simultaneamente e sob uma só forma? E não seria essa a nossa busca atual: que as lutas e as conquistas de todo gênero feminino sejam retratadas e gozadas individualmente por cada mulher e vice-versa?

 

Segundo a própria artista, sua intenção ao retratar rostos sem traços distintivos seria de permitir que o observador preenchesse as difusas faces com os rostos femininos que preferisse e tivesse em sua mente. Uma vez mais, Cristina Canale tem a habilidade de desestabilizar o olhar de seu observador, de quitar-lhe a terceira perna do tripé estável de seu comodismo ou de sua zona de conformo, e de levá-lo a um espaço intermediário, um espaço entre o que está realmente retratado pela pintura e o que ele, com sua percepção e experiências próprias, enxerga nelas. A artista abala suas certezas através de sua sutil e delicada subversiva tensão entre o figurativo e o abstrato, entre o ser e as coisas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Observações: 

  • Este texto foi originalmente publicado no site www.thinkolga.com no dia 20 de abril de 2015. 

  • Uma versão modificada do texto também foi publicada em espanhol no jornal argentino  www.pagina12.com.ar no dia 12 de agosto de 2014.

  • As imagens aqui utilizadas foram gentilmente cedidas pela assessoria de imprensa da Agência Guanabara.

  • Na página web da Galeria Nara Roesler, tanto imagens da exposição “Entre o ser e as coisas” quanto seu catálogo podem ser visualizados: www.nararoesler.com.br

  • A citação do romance “A paixão segundo G.H.” foi retirada da edição de 2009 da Editora Rocco, páginas. 9-10.

"Anjo"
Mostrar Mais
"Menina e vento"
"Damas"
Mostrar Mais
"Medusa"
Mostrar Mais
Todos direitos reservados - Renata Martins - 2020 
This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now