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Objetiva/ A fé-menina de Nair Benedicto

A fotógrafa paulista Nair Benedicto (1940) em sua última mostra “Fé Menina” (São Paulo) exibiu trabalhos que ilustram sua percepção sobre o universo feminino através de um olhar provocadoramente etéreo e sensual, um olhar que legitima o prazer, a devoção e o estado de existir de suas protagonistas. Considerada uma das maiores fotógrafas do país, Nair Benedicto expôs uma coletânea de fotos em preto e branco e em cores que busca retratar a condição feminina desde os anos 1970 até a atualidade e cujo foco está direcionado e apoiado na figura fundamental da mulher em cada clique, pois segundo ela: “Mulher sempre foi um tema recorrente no meu trabalho. Eu considero esses registros fotográficos um pout pourri sobre a realidade da mulher brasileira, que é mostrada em diferentes situações: na prisão, em passeatas, em aldeias indígenas e no carnaval”.

 

 

A vibração, a dramaticidade e a potência que acompanham os conteúdos das fotos de Nair Benedicto são intensificadas pelo efeito óptico que os elementos visuais em preto e branco produzem entre si. Essa mescla viceral entre o conteúdo/mensagem e a forma retradata em cada foto permite ao observador ter acesso a uma combinação de percepções díspares e, ao mesmo tempo, complementares entre si como a noção de distanciamento e de proximidade, de movimento e estaticidade, de simbologia conservadora e libertária, da devoção/recato e do profano/prazeroso. E nesse universo de pulsação vital, Nair Benedicto captura a figura feminina, que ocupa a posição cêntrica na cena e se deixa registrar sem filtros em um momento particular e simbólico de sua existência.

 

 

 

 

 

 

 

 

A aptidão que Nair tem em abstrair uma determinada cena de seu espaço-tempo e de projetá-la em nosso presente estimula a imaginação do observador que busca decifrá-la e interpretá-la a partir de sua própria realidade. A fim de aprofundar o significado que as imagens passam a ter para si, esse observador tende a „scannear“, a perambular sobre cada detalhe do plano fotográfico e esse, segundo o filósofo tcheco Vilém Flusser (1920-1991), é um caminho complexo que o olhar tende a seguir: um caminho formado e delimitado em parte pela própria estrutura da imagem e em outra parte pelas intenções do observador. Devido a essa ação de „scanner“, o significado de cada imagem passa a apresentar tanto a intenção da própria imagem, em seu particular microcosmo narrativo, quanto a do observador, em seu macrocosmo social, fazendo com que cada imagem forneça complexos de símbolos conotativos. Ou seja, cada imagem abre espaço para variadas interpretações e intenções – dependendo justamente do olhar de quem a scannea e a decifra. E cada imagem de Nair Benedicto nos permite deambular pelo recorte de um determinado universo particular que ela capturou com seu olhar e nos oferece. A cada imagem registrada somos levadas a um instante de convivência e interação com as mulheres ali representadas e podemos, através de nossa leitura em „scanner“, preenchê-la com nossas próprias intenções, interpretações e experiências.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

Enquanto o olhar do observador capta um elemento após o outro do plano da imagem, ele passa a estabelecer relações de significados entre esses elementos internos em si, entre esses elementos e outras imagens já vistas anteriormente que lhe marcaram profundamente, entre esses elementos e a realidade do próprio observador. Nesse movimento que aponta tanto para o universo interno quanto para o externo da imagem ali retratada encontra-se um mundo mágico: um mundo onde tudo acaba se repetindo e interligando o passado ao presente; onde tudo compõe um contexto de significados variados e interconectados a partir do olhar de cada observador. Nesse sentido, a abordagem do universo feminino pela lente de Nair Benedicto aponta para um mundo mágico porque retoma e conecta o passado ao presente através da representação de temáticas recorrentes e pertencentes ao universo feminino. Numa espécie de eterno retorno ao contexto do femenino e seus enclaves ainda existentes, especialmente na abordagem e na evocação de „o prazer é nosso sim e não há razão para repressão alguma“ ou „essa é a fé menina – minha constituição natural e da qual não devo me envergonhar“ Nair Benedicto trabalha a estética de ser fêmea, de ser mulher sem medo ou repressão alheia.

 

A magia das imagens de Nair Benedicto encontra-se também presente na inusitada combinação entre a ambientação etérea e a realistamente brutal, como no retrato das mulheres do sisal. Uma magia que aponta o poder transformador da fotografia na qual acredita a artista, já que “Por meio dela [fotografia], procuro chamar a atenção para questões que considero relevantes para a sociedade”.

 

 

No curto documentário abaixo, ouvimos Nair Benedicto falar especialmente de dois trabalhos audiovisuais que lhe marcaram: “O prazer é nosso” e “Não quero ser a próxima”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Observações: 

"Louvação à Iemanjá", 1978
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"Pagadora de promessa", 1981
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"Tesão no Forró do Mário Zan", 1978
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"Mulheres trabalhando no sisal"
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